À Primavera
(tirada há minutos)
A vida anda possessa de Poesia! Anda prenha de mosto!
Ou é da luz do dia,
Ou é da cor do rosto,
Ou então quer abrir-se, neste gosto De pão com todo o sal que lhe cabia!
Tem narcisos de amor no coração, Folhas de acanto nos sentidos!
E carícias na mão
A espreitar dos tendões adormecidos!
Toca-se numa pedra, e ela treme! Murmura-se uma prece, e a boca grita!
A rabiça do arado é como um leme
Sobre a terra que ondula e ressuscita! Quem avoluma a sombra, ou quem a teme? Cada presença é um hino que palpita!
E se na estrada alguém discorda e geme, Ninguém que vai no sonho o acredita!
Serás tu, Primavera?
Tu, com frutos na rama do futuro, Com sementes nos pés,
E flores inúteis sobre cada muro, Contentes só da graça que tu és!
Odes . Poesia completa I, de Miguel Torga . Círculo de Leitores – (pág. 221)



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